Não me deu o criador a sorte de ter tido grande paciência para parangonas esquerdalhistas e outras mariasdasfontices nacionais, ainda que ao som da Internacional. Desconfio do salvamento do mundo, especialmente se por decreto. Aquele desfolhar de amplíssima, documentadíssima e urgentíssima sapiência e o refinamento com que nos apresentam tais bizantinas cardinalidades, parece-me mais do mesmo, simples macaqueação dos tiques dos oponentes …
Por outro lado, dos revolucionários – sempre muy fraternários e barbudos – do tempo da minha juventude ficou-me a ideia que da curiosa parelha da “foice e martelo” com qualquer dos dois nunca tinham travado conhecimento por-í-além: quando muito apenas com um deles, o martelo. Obviamente, aquele martelo mais leve - o da sapateira e da santola - que manejavam de sobejo por marisqueiras de Alcântara ou Cacilhas antes de se irem a escrever inspirados duas ou três copiosas Odes à Madrugada, aprendizes que eram do lustroso Ari dos Santos. Viver em zonas ribeirinhas ricas em marisco pode trazer o mais perigoso dos descréditos às teorias sociais e políticas. Digo eu…
Ainda assim, e ao ver o que a nossa direita por aí escreve sobre a necessidade de pagar em miséria os que trabalham (quando não de descer-lhes farta a lenha sobre o lombo se se queixam) as invectivas aos marxismos e radicalismos, lembro-me frequentemente do que Marx apontava no Grundrisse… da edição da Penguin dos seus apontamentos, nos quais, no inverno de 1857-8 desenvolveu a sua teoria do comunismo. A colecção dos sete livros de apontamentos desenvolve as ideias adiantadas no Manifesto Comunista de 1848, pela primeira vez oferece o desenvolvimento também do pensamento de Marx sobre a dialética de Hegel e podem ver-se já aqui em formação aquelas que virão a ser as suas teses que irão ser expostas em O Capital.
O Grundrisse (este abaixo), publicado pela primeira vez em língua alemã em 1939 sob o título Grundrisse der Kritik der Politichen Ökonomie, é a tradução deste publicada pela Penguin em 1973 e republicada em 1993.
E tem aqui, além de tudo o mais que contém, uma passagem curiosa, porque não foca ou expressa uma visão científica da política e da economia, ou da História, dá-nos antes a conhecer através das notas e apontamentos que Marx ia fazendo, uma indignação moral. Por causa das muitas parvoíces que em nome dos variados e desvairados marxismos se fizeram ao longo dos tempos não nos deveríamos esquecer que muitos dos escritos de Marx nascem precisamente disso, de uma indignação moral com a desumanidade com que os homens do seu tempo tratavam os seus semelhantes.
Claro que Marx foi um pardalão marxista e radical, coisa que, em se sendo - como nos diz a santa madre igreja – nos faz comer crianças fritas ao pequeno-almoço, ao contrário de muitos dos seus ministros que as vão preferindo au naturel, como os jornais nos vão dando a saber contra a vontade da veneranda Instituição. Mas mesmo um autor insuspeito, o aristocrata e conservador francês Alexis de Tocqueville da Inglaterra de então (Manchester, 5 Juillet 1835) nos relata mais ou menos o mesmo (toda a descrição pode ser lida aqui pp.365-9).
Foi dessa paisagem humana, urbana ou rural, da “paisagem” de ideias e moralidade que eram comuns ao seu tempo (comuns a todos os tempos, dir-se-ia) que Marx tomou nota das frases escritas pelo Reverendo Townsend (um clérigo inspirado pela mais profunda caridade cristã pelos vistos) que advogam entre outras coisas que os pobres vivam na miséria e sejam pela fome impelidos à necessidade de trabalhar. Frases que marquei aqui a verde e vermelho, e se encontra na p. 845 desta edição do Grundrisse . De notar, que elas expressam, o que muita gente continua a pensar duzentos anos depois, mas poucos se atrevem a expressar desta forma crua:
“It seems to be a law of nature that the poor should be to a certain degree improvident, that there may be always some to fulfil the most servile, the most sordid, and the most ignoble offices in the community. The stock of human is thereby much increased. The most delicate ones are thereby freed from drudgery and can porsue higher callings etc. undisturbed.”
“Legal constraint to labour is attended with too much trouble, violence, and noise, creates ill will etc., whereas hunger is not only a peaceble, silent, unremitted pressure, but, as the most natural motive to industry and labour, it calls forth the most powerfull exertions.”
O programa do Governo e a prosápia do ministro Álvaro, resumem-se no fundo, ainda, a isto. Do Liberalismo, extripado o coração e o cérebro, ficou-lhes a prédica que lhes ouvimos: ou as tripas à moda da casa…