Gestor de descarreira

Que programa e que latim: gestor de carreira para desempregados. Fica a pílula bem douradinha. Um cristão surpreendido por tal título deita-se a imaginar… num pinhal, à beira da EN1, uma profissional de minissaia insinuante, resguardada do sol por capilares oxidações. E a dois passos, um letreiro de cartão afixado num pinheiro ou eucalipto  onde se pode ler em letras garrafais:

«Gestora de Aluguer de Esfíncteres em Parcerias Público-Privadas»

O outro, que apela à criatividade não deve caber em si de orgulhoso neste palafreneiro corujedo que vai gerindo.

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A diferença de gerações explicada por Ubaldo Ribeiro

Da crónica Essas mulheres de hoje em Dia

[...]

“- No tempo da gente, mão no peito até por fora da roupa era trabalho de meses – resmungou um, rancorosamente.

- Por dentro, tinha cara que ficava noivo de aliança no dedo e não conseguia! Hoje em dia, essa molecada pega a maior moleza, vai saindo do MacDonald’s direto pro motel!

Revolta geral, mudança imediata e brusca de assunto. Sim, as mulheres de hoje em dia, que horror. Nem na Playboy, que no começo da década de 60 era mais ou menos contrabandeada dos Estados Unidos, elas apareciam como aparecem hoje, com tudo de fora, já não há mais o que mostrar. E pensar que, na década de 50, um exemplar do número da revista Esquire que trazia a foto da injustamente olvidada Colleen Miller só de calça comprida e sem sutiã era disputado a tapa e a gente deixava o buço crescer e pagava inteira no cinema só para ter a chance de ver o peito de Françoise Arnoul escorregar para fora da combinação durante meio segundo, glória das glórias! Hoje não, hoje é essa sem-vergonhice, isso tira a graça de tudo, a verdade é essa.”

[...]

“E assim ia a conversação, quando o olhar de um dos presentes congelou- se e os outros o acompanharam. Quem vinha de lá? Ninguém conhecia a morena que ondulava rua acima, sabendo perfeitamente o efeito que causaria. Umbiguinho de fora, short muito curto, seios que a brisa do Leblon beijava e balançava, tudo, mas absolutamente tudo, irretocável, uma provocação que chegava às raias da criminalidade. Ah, essas mulheres de hoje em dia. Ela passou, estabeleceu-se um silêncio absorto. Logo o papo voltaria, é claro, mas, naquela hora, o que todos pensaram foi a cruel verdade, de enunciado sempre doloroso: o grande mal da nova geração é que a gente não pertence mais a ela.”

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Not the ignorant suffering of an animal

imagem:http://bookhaven.stanford.edu/2010/12/david-langs-postmodern-passion-it-is-not-a-pretty-story/

“At the back of one of the houses a young woman was kneeling on the stones, poking a stick up the leaden waste-pipe which ran from the sink inside and which I suppose was blocked. I had time to see everything about her – her sacking apron, her clumsy clogs, her arms reddened by the cold. She looked up as the train passed, and I was almost near enough to catch her eye. She had a round pale face, the usual exhausted face of the slum girl who is twenty-five and looks forty, thanks to miscarriages and drudgery; and it wore, for the second in which I saw it, the most desolate, hopeless expression I have ever seen. It struck me then that we are mistaken when we say that ‘It isn’t the same for them as it would be for us’, and that people bred in the slums can imagine nothing but the slums. For what I saw in her face was not the ignorant suffering of an animal.”

Certamente o leitor reconhece o trecho de Orwell de The Road to Wigan Pier. Com esta tradição em mente, não deve perder Alice já não mora aqui de Ana Cristina Leonardo. Quanto a mim – que não faço vida de “lambe-cus-ismos”, literários ou de outra espécie - é um dos grandes textos da blogosfera. De coisas assim se fazem países civilizados. Ou da  afixação por aí da necessidade de Conversores de SensibilidadeNão da obrigatoriedade de gravatas à La Sir João Carlos Espada.

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Dos maléficos marxismos

Não me deu o criador a sorte de ter tido grande paciência para parangonas esquerdalhistas e outras mariasdasfontices nacionais, ainda que ao som da Internacional. Desconfio do salvamento do mundo, especialmente se por decreto. Aquele desfolhar de amplíssima, documentadíssima e urgentíssima sapiência e o refinamento com que nos apresentam tais bizantinas cardinalidades, parece-me mais do mesmo, simples macaqueação dos tiques dos oponentes …

 Por outro lado, dos revolucionários – sempre muy fraternários e barbudos – do tempo da minha juventude ficou-me a ideia que da curiosa parelha da “foice e martelo” com qualquer dos dois nunca tinham travado conhecimento por-í-além: quando muito apenas com um deles, o martelo. Obviamente, aquele martelo mais leve - o da sapateira e da santola - que manejavam de sobejo por marisqueiras de Alcântara ou Cacilhas antes de se irem a escrever inspirados duas ou três copiosas Odes à Madrugada, aprendizes que eram do lustroso Ari dos Santos. Viver em zonas ribeirinhas ricas em marisco pode trazer o mais perigoso dos descréditos às teorias sociais e políticas. Digo eu…

Ainda assim, e ao ver o que a nossa direita por aí escreve sobre a necessidade de pagar em miséria os que trabalham (quando não de descer-lhes farta a lenha sobre o lombo se se queixam) as invectivas aos marxismos e radicalismos, lembro-me frequentemente do que Marx apontava no Grundrisse… da edição da Penguin dos seus apontamentos, nos quais, no inverno de 1857-8 desenvolveu a sua teoria do comunismo. A colecção dos sete livros de apontamentos desenvolve as ideias adiantadas no Manifesto Comunista de 1848, pela primeira vez oferece o desenvolvimento também do pensamento de Marx sobre a dialética de Hegel e podem ver-se já aqui em formação aquelas que virão a ser as suas teses que irão ser expostas em O Capital.

O Grundrisse (este abaixo), publicado pela primeira vez em língua alemã em 1939 sob o título Grundrisse der Kritik der Politichen Ökonomie, é a tradução deste publicada pela Penguin em 1973 e republicada em 1993.

E tem aqui, além de tudo o mais que contém, uma passagem curiosa, porque não foca ou expressa uma visão científica da política e da economia, ou da História, dá-nos antes a conhecer através das notas e apontamentos que Marx ia fazendo, uma indignação moral. Por causa das muitas parvoíces que em nome dos variados e desvairados marxismos se fizeram ao longo dos tempos não nos deveríamos esquecer que muitos dos escritos de Marx nascem precisamente disso, de uma indignação moral com a desumanidade com que os homens do seu tempo tratavam os seus semelhantes.

Claro que Marx foi um pardalão marxista e radical, coisa que, em se sendo - como nos diz a santa madre igreja – nos faz comer crianças fritas ao pequeno-almoço, ao contrário de muitos dos seus ministros que as vão preferindo au naturel, como os jornais nos vão dando a saber contra a vontade da veneranda Instituição.  Mas mesmo um autor insuspeito, o aristocrata e conservador francês Alexis de Tocqueville da Inglaterra de então (Manchester, 5 Juillet 1835) nos relata mais ou menos o mesmo (toda a descrição pode ser lida aqui pp.365-9).

Foi dessa paisagem humana, urbana ou rural, da “paisagem” de ideias e moralidade que eram comuns ao seu tempo (comuns a todos os tempos, dir-se-ia) que Marx tomou nota das frases escritas pelo Reverendo Townsend (um clérigo inspirado pela mais profunda caridade cristã pelos vistos) que advogam entre outras coisas que os pobres vivam na miséria e sejam pela fome impelidos à necessidade de trabalhar. Frases que marquei aqui a verde e vermelho, e se encontra na p. 845 desta edição do Grundrisse . De notar, que elas expressam, o que muita gente continua a pensar duzentos anos depois, mas poucos se atrevem a expressar desta forma crua:

“It seems to be a law of nature that the poor should be to a certain degree improvident, that there may be always some to fulfil the most servile, the most sordid, and the most ignoble offices in the community. The stock of human is thereby much increased. The most delicate ones are thereby freed from drudgery and can porsue higher callings etc. undisturbed.” 

“Legal constraint to labour is attended with too much trouble, violence, and noise, creates ill will etc., whereas hunger is not only a peaceble, silent, unremitted pressure, but, as the most natural motive to industry and labour, it calls forth the most powerfull exertions.”

O programa do Governo e a prosápia do ministro Álvaro, resumem-se no fundo, ainda, a isto. Do Liberalismo, extripado o coração e o cérebro, ficou-lhes a prédica que lhes ouvimos: ou as tripas à moda da casa…

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Os seguidores que perco

Ao ver este videozinho que desconhecia até hoje, no Minoria Relativa, constato que – dada a minha pouca aversão aos utensílios agrícolas e apologia deles por parte de Pedro - ando a perder seguidores. Tivesse o Pedro visto este post sobre gadanhas e alçava-me monumento ao lado do Avião de Gago Coutinho para exemplo à nação.

Faz-te meu seguidor oh Pedro, e aqui terás bom aconselhamento de enxadas e alferces, machadas e gadanhas. Abeira-te d’aqui oh Pedro, e de enxós à falca parlamentaremos. Do carpintejar de pendurais e semadres, barrotes de 7 por 9, quiçá…

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Descendo a Estrada da Graciosa

Ontem, descendo a Estrada da Graciosa até ao mar.

Mesa posta no rio, em Morretes.

… outras actividades lúdicas & “ainda a procissão vai no adro”, no mesmo rio…

 Antonina:

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A caridade cristã

a maior força social da humanidade, a caridade cristã, e tal, escreve-nos hoje o doutor César níveo.

Dado o “Cædite eos. Novit enim Dominus qui sunt eius” que de  Arnaud Amalric se escreveu, o feito que imortalizou a igreja de Sainte-Madeleine em Béziers, na caridade dos nossos cristãos como na dos outros de antanho, é melhor não andarmos muito confiados.

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